Carta para minha amiga que não tem filhos

Li este texto lindo em inglês e resolvi traduzir e adaptar.

Carta para minha amiga que não tem filhos:

Me desculpe por nossa amizade estar deste jeito. Me desculpe por eu ter mudado tanto. Eu não preciso te dizer que a maternidade faz com que a gente mude (não é porque você não tem filhos que você não entenda como a vida funciona). A maternidade é um acontecimento marcante, fenomenal, emocionante e assustador. Mas nós duas sabíamos que isto iria acontecer. Nós sabíamos que eu iria mudar. Já imaginávamos que iríamos nos falar menos, nos encontrar menos. Sabíamos que eu, pessoa pontual, me tornaria a típica mãe, sempre atrasada para tudo. Nós sabíamos que mais cedo ou mais tarde surgiriam festas que eu não poderia comparecer. Celebrações que eu não estaria presente. Tudo isso já era esperado. O que a gente não imaginava, é o quanto eu iria mudar. Não estou me referindo a minha versão “mamãe” mas a minha versão EU de todos os dias (e neste momento estas duas versões são quase a mesma coisa).

Você ainda tenta. Você vem nos visitar. Você traz presente para o meu filho(a), e o mais importante, você traz a si mesmo. Você pergunta como eu estou, eu pergunto como você está. Mas a conversa é difícil porque quando você começa a me contar daquela festa que você foi, ou sobre o que aquela vaca do seu trabalho fez com você, lá vou eu correndo tirar o meu filho de cima da mesa, ou arrancar a caneta das mãos dele para que ele não pinte a parede da sala. Eu dou um grito e peço para você continuar contando, digo que ainda estou ouvindo. Eu então volto a sentar ao seu lado, você recomeça a contar a história, mas antes que você termine a segunda frase, lá vou eu novamente atender a criança que diz querer água. Ah não, não é água, é suco. Ah não, não é suco, é leite. Leite também não. Lá vou eu tentar descobrir que “ralhos” esta criança quer.  Por isso tudo peço desculpas, por todas as conversas que nunca terminam. Por todas as conversas que na verdade terminam comigo cantando “A galinha pintadinha, é o galo carijó…”

Por favor, saiba que não é que eu não me importo, não é que eu não me importo com a sua vida, sua carreira, seus amores, ou a sua viagem mais recente. Eu me importo, e me importo muito. Eu daria qualquer coisa para ouvir suas histórias, nem que fosse por dez minutos, dez míseros minutinhos. Mas entre mamadas, papinhas, noites mal dormidas e manhãs que começam muito mais cedo do que eu gostaria, eu mal consigo tempo para fazer xixi tranquilamente.

A verdade é que eu estou tentando. Eu sei que nem sempre é o que parece e por isso eu peço desculpas. É muito difícil se expressar quando sua cabeça está uma bagunça, e você está tentando aprender sobre métodos de introdução alimentar, formas de ensinar a criança a dormir, brinquedos educacionais, e medicina alternativa. Logo eu, que sempre mantive minha vida sobre controle. Para ser sincera, neste momento, a única coisa que luto bravamente para conseguir manter sobre controle são as poucas sonecas do meu filho (leia-se o horário que eu tomo banho e como alguma coisa). E sem que eu pudesse escolher, por agora, apenas por agora, as outras coisas ficaram para depois. E infelizmente isso incluiu você. Então, eu peço desculpas que quando a gente fala no telefone, o assunto principal sou eu e meu filho. Aliás, sou eu gritando com o meu filho para que ele tire o papel da boca.

Me desculpe que quando você me manda uma mensagem eu nem sempre respondo na velocidade que você merecia. E eu peço desculpas que eu fico te mandando três mil novecentos e setenta e oito fotos do meu filho. É que as vezes esta é a minha realidade, e por isso é a única que forma que eu tenho conseguido iniciar uma conversa. E talvez seja a única forma que eu consiga quebrar o gelo, e me aproximar de você novamente.

Então, me desculpe se eu pareço estar sempre distraída. Me desculpe se pareço desinteressada, distante. Saiba que tudo isso não tem nada a ver com você ou com a nossa amizade. É apenas o reflexo de  alguém tentando ser mãe, esposa, filha, mulher e amiga. Eu te amo. Eu amo a pessoa que você é. E agradeço a Deus por ter você na minha vida. Você é a amiga que todos gostariam de ter. E são por estes motivos que eu te imploro, em nome de todos estes anos de amizade, por favor continue tentando. Eu  preciso de você e preciso que você não desista da nossa amizade.

Com amor,

Da sua amiga de sempre.

Um comentário sobre “Carta para minha amiga que não tem filhos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s