O Teste Positivo – Zara

Era um Sábado como outro qualquer. Estávamos no carro, voltando da casa de amigos, quando de repente: Enjoo. Ânsia. Mal estar.

“- Afeee João Henrique (uma das vantagens de ter um marido com nome duplo, é que quando você está brava, você pode chamá-lo não somente pelo primeiro nome, mas também pelo segundo), dirige direito pelo amor de Deus! Fica neste acelera e freia, acelera e freia. Estou quase vomitando aqui atrás com Dom.”

Dom é nosso filho mais novo, na época com 4 meses e meio. O Cae, o mais velho, estava cochilando no banco da frente. Incrível como pré adolescentes conseguem dormir em qualquer ocasião.
Falando em dormir, chegamos em casa e tudo que eu eu queria era dormir.
Dormir.
Dormir.
Dormir.
Esta vida de mãe de dois filhos não é mole não.
Os dias foram passando, e o João ficando cada dia mais barbeiro.
Era eu entrar no carro com ele, que eu passava mal.
Eu não aguentava mais reclamar, e ele provavelmente não aguentava mais escutar minhas reclamações:

“- Que chata Rafa, você vive enjoada, deve estar grávida. Para de reclamar e vem dirigindo então.” Disse ele com ar de deboche.

A única coisa que ouvi da frase toda foi:

“Blá blá blá GRÁVIDA blá blá blá..”

Grávida? Pensei comigo mesma. HA-HA-HA-HA. Impossível.

Dom tem só 4 meses e meio. Minha menstruação ainda nem se quer voltou depois do parto. Aliás, bem lembrado, mulher que amamenta não ovula e não menstrua. Dom é amamentado exclusivamente no peito. Consequentemente, eu como sempre sei de tudo, estou mais uma vez certa: Não estou grávida.

Naquela noite eu não consegui dormir. Os enjoos estavam começando a ficar muito suspeitos. Levantei na calada da noite e fui para o banheiro, onde desesperadamente revirava as gavetas:

Achei! Eu sabia que tinha um teste de gravidez. Este ainda de quando engravidei do Dom, e era obcecada por fazer xixi em testes, só para ver as duas linhas aparecerem!

Perfeito, agora só preciso fazer este teste de uma vez, e assim eu posso dormir tranquila.
Pronto, feito.
Olho para o teste e vejo o xixi viajar em direção a área onde mostra o resultado. Segundos de tensão.
O xixi vai passando, vai passando.
A linha controle aparece.
Outra linha aparece.

Outra linha aparece?
Como assim?
Que linha é essa?
Volta xixi, volta para o lado de lá pelo amor de Deus.
A linha vai ficando mais forte.
Mais forte.
Melhor assoprar este teste. Vai que a tal linha apaga?
Caraca, a linha está até mais forte que a linha controle.
A linha já está quase saindo de dentro do teste e vindo aqui me dar um tapa na cara.
Socorro, eu acho que vou desmaiar.

Não preciso nem dizer que a noite foi

L
O
N
G
A

B E M

L
O
N
G
A

Meu marido na tranquilidade do seu universo masculino, dormia como um anjo. Aliás, as vezes penso que os anjos devem ter inveja do sono do meu marido.
Meu marido dormia o sono dos justos. Roncava. Mal sabia ele a notícia que estava prestes a receber. Tadinho do meu marido.
E por falar em notícia. Como é que você diz para um homem que ele será pai novamente, quando o seu caçula ainda nem se quer senta sozinho?!
Meu Deus, o Dom! Foi aí que pensei no Dom.
Ele é tão bebê e já vai ser irmão mais velho. Tadinho do meu bebê! O que foi que eu fiz?!
E o Cae? Ele ainda está se ajustando com o fato de não ser mais o filho único. E agora vai ser irmão de dois! Tadinho do Cae! O que foi que eu fiz?!
E este bebê que está na minha barriga, meu Deus, o bebê deve estar sentindo que eu estou triste. Tadinho do bebê! O que foi que eu fiz?
Tadinho do meu marido, tadinho do Dom, tadinho do Cae, tadinho do bebê!
Eu sou uma bruxa em todos os sentidos!
Socoooooooooorro!!!
Entrei naquela onda de sentimento de culpa e foi assim a noite inteira.

Finalmente o dia amanheceu. Tentei agir normalmente e não contei nada para ninguém. Eu precisava pensar (como se a noite toda pensando não tivesse sido o suficiente).

Chega Rafaela. Chega desse mimimimi.
Criei coragem e liguei para o meu médico.
A secretária mais do que rapidamente entendeu que se tratava de uma emergência (acho que o meu choro, misturado com alguns gritos, e somado ao fato de que eu quase implorei por uma consulta para hoje, para agora, para já, fez com que ela entendesse). Ela disse que eu poderia ir agora mesmo, eles dariam um jeito de me encaixar.

Inventei alguma desculpa para o João (e sinceramente nem consigo lembrar qual foi) e deixei ele com o Dom em casa, enquanto eu fui correndo para o médico.

Chegando lá dei de cara com um consultório lotado. Aparentemente todas as mulheres de San Diego decidiram se reproduzir na mesma época, e marcaram consulta para o mesmo dia, e com o mesmo médico que eu.
Passa uma hora. Uma hora e meia. Duas horas.
O João começa a ligar.
Eu não atendo. Afinal, ia falar o que?
E começam as mensagens:

“Está na hora do Dom mamar, cadê você?”

Eu: “Tem leite no freezer. Descongele a banho maria e de pra ele.”

João: “Cadê você? Me atende.”

E agora José? A estas alturas ele já tinha me ligado umas 15x. Eu não tinha mais como fugir. Mandei uma mensagem:

“Estou no médico. Pode ser que eu esteja grávida. Te ligo quando sair.”

BAM, desliguei o telefone.

Eu não tinha coragem para fazer mais nada naquele momento.
O médico me chama. Finalmente!
A ecografia confirma: Gravidíssima.
Chorei muito. Uma mistura de emoções. Medo, alegria, tristeza (não vou negar), ansiedade. Tudo junto e misturado.

Sai do médico e fui direto pra casa.

Cheguei em casa, e lá estava o João. Olhei para ele, ele olhou pra mim. Nem precisamos dizer nada. Nós dois começamos a rir. Uma risada meio sem jeito, nervosa, mais cheia de medo do que qualquer outra coisa.

Os dias foram passando e nós fomos caindo de amores por este bebê que estava por vir. Quando recebemos a notícia que seria uma menina, eu quase pulei da maca para dar um beijo na técnica do ultra-som. Já o João (nas palavras dele mesmo) sentiu que todos os cabelos brancos de sua cabeça estavam se multiplicando.

E no dia 23 de Setembro de 2015, quando o nosso caçula tinha acabado de completar 1 ano, através de uma VBA2C (parto vaginal depois de duas cesarianas), nossa Zara chegou ao mundo. Ela veio para completar nossa família e para nos mostrar, mais uma vez, que os planos de Deus são infinitamente melhores do que os nossos.

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