Simples gestos

O padrinho do Dom, um americano amigo de anos do meu marido, veio nos visitar. Ele mora em outra cidade e não vem pra cá com freqüência. Fomos nos encontrar em um restaurante japonês aqui perto de casa.
Não vou entrar em muitos detalhes, só vou dizer que meus filhos quebraram não somente um mas DOIS pratos em um intervalo de menos de 10 minutos, e que vi edamame ser arremessado para o outro lado da mesa. E que Zara gritava porque queria sopa e a sopa estava fervendo. E Dom repetia 300x que queria sushi e a comida nunca chegava. E o padrinho puxava papo e queria conversar. E meu marido que é ligeiramente surdo não conseguia ouvir nada do que o padrinho falava em meio aos gritos.
Um festival de choro, misturado com um tsunami de arroz grudento, passou por cima de mim, do meu marido, do padrinho, e da mesa onde estávamos.
Sabe quando tudo foge do seu controle de uma tal maneira que parece que não há nada que você possa fazer, a não ser chorar?
A uma certa altura preferi sair com a Zara do restaurante. Aquela sensação horrível de vergonha, misturado com o medo (certeza) de estar incomodando, e a impotência de não conseguir resolver o problema, e a frustração de não poder sentar à mesa e aproveitar o momento.
E assim fiquei lá fora, olhando pelo vidro, com o choro engasgado na garganta.
Nisso uma senhora que estava saindo do restaurante vem na minha direção:
“- Qual é o nome da sua bebê?”
Eu respondo:
“- Zara.”
Ela faz uma gracinha para a Zara, e continua:
“- Linda Zara. Linda como a mãe.”
Eu paro por um segundo. Lembro que estou com o cabelo despenteado, preso. Calça de ginástica, blusa suja pós tsunami de arroz, rosto sem maquiagem, e provavelmente com expressão de quem está segurando o choro.
Eu estou um caos. Eu sei que estou um caos.
Ela brinca mais um pouco com a Zara e eu respondo:
“- Obrigada.”
Ela caminha até o seu carro e vai embora.

A realidade é simples. Tem dias que é tudo mil maravilhas. Tem dias em que as crianças me escutam, se comportam, querem ajudar, e abrem grande sorrisos. Mas também existe o oposto. Dias onde não importa quantas vezes eu repita, eles não escutam. O que é normal para a idade deles, mas desafiador para nós mães.

Eu sei que uma hora tudo isso irá passar. E que as crianças irão crescer. E que quando isto acontecer, também será uma fase difícil. E não será diferente com a sua família, ou com a família da vizinha.
Portanto, se você estiver em um local público, e presenciar uma mãe tentando sem sucesso manter as crianças sob controle, e se você se deparar com uma mãe a beira de uma crise nervosa, por favor, não olhe com desaprovação e não julgue. Se aproxime, fale algo bom. Qualquer coisa. Seja você, e a sua voz, a luz que pode fazer a diferença no dia de alguém.
Porque tem dias que é simplesmente difícil. E são em momentos assim, que um gesto simples carrega um impressionante poder de cura.

3 comentários sobre “Simples gestos

  1. Pingback: Melhores links da semana (de 12 a 17/09/2016) - Só Melhora

  2. Rafa eu e minhas irmãs estamos vivendo a gravidez de uma de nós que tem sabor especial a cada uma toda semana engordando um pouco sentimos enjoos e nos alertamos muito com tudo que diz respeito a gravidez maternidade. .. mais suas palavras estão dando vida a cada sentimento que NÃO sabemos explicar amei e já compartilhei com minhas irmãs. Bijus parabéns.

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