Língua fala. Língua paga.

As duas meninas que estão com meus filhos na banheira são filhas de uma amiga. 

Há 2 anos atrás, estávamos em um grupo de amigos em uma cervejaria. Na época esta minha amiga só tinha a filha mais velha, que deveria estar com uns 6 meses de idade. Na festa estávamos todos bebendo socialmente. Todos menos esta minha amiga. Na hora já estranhei. Justo ela, que gosta de uma cerveja. Perguntei se ela não ia beber, e ela disse que não. 

Totalmente na brincadeira disse que se ela não estava bebendo era porque estava grávida. Ela negou, riu, e disse que não estava. E eu, não sei porque cargas d’água comecei um discurso. Disse que era bom que ela não estava grávida, afinal, ela tinha uma filha pequena e é super difícil criar “2 under 2” (termo que usam aqui para falar de mães com 2 filhos menores de 2 anos). Ainda citei o exemplo de uma outra amiga nossa, lembrando o quanto ela vivia na correria e se privava de muitas coisas por ter dois filhos com idade próxima. Também fiz questão de relembrar que criar filhos aqui, longe da família e difícil, blá-blá-blá. 

Só de lembrar, já me revolto. O que é que eu tinha na cabeça pra dar lição de moral sobre este assunto, aliás, sobre qualquer assunto?

No dia seguinte minha amiga me liga, para me dizer que estava grávida. E para me pedir para não contar para ninguém. Ela tinha descoberto a poucos dias, ainda estava surpresa, e não tinha nem contado para toda a família.

Eu queria desaparecer, voltar no tempo, engolir de volta às minhas palavras. O maior problema das palavras é justamente isto. É que uma vez que são ditas, elas não podem ser esquecidas, só podem ser perdoadas. Quanto poder reside naquilo que sai da nossa boca. Ta aí um aspecto da minha personalidade que preciso e tenho tentando mudar. Ser mais consciente naquilo que falo. Tirar o impulso. Estar presente em cada palavra. E acreditem, é difícil. Por vezes sinto que só tenho falhado. Em outras ocasiões, celebro a escolha das minhas palavras.

3 meses depois desta história, descobri que estava grávida da Zara. E advinha, a diferença de idade dos meus caçulas é ainda menor do que os da minha amiga. E hoje rimos disto tudo, afinal, “língua fala, língua paga”. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s