O caso do novo iPhone

Meu celular morreu. Ele já estava em estado de decomposição há alguns meses. Ele sabia que precisava sobreviver até Setembro, mês do lançamento do novo iPhone. E como um grande soldado, ele cumpriu nossa promessa. Na sexta a tarde ele deu seu último suspiro.
Ontem pela manhã fui até a loja Apple mais perto da minha casa.
Loja lotada, como sempre. Toda vez que alguém fala em crise mundial eu lembro da loja da Apple. As vezes penso que dentro de cada loja deve haver um centro de recrutamento de figurantes. A Apple paga a diária, e eles ficam lá, zanzando pela loja, mexendo nos eletrônicos.
Vou entrando, abrindo espaço em meio aos figurantes.
Ahhh, lá está ele.
Lindo.
Grande.
Rose Gold.
Milhões de gigas de memória.
É um caso de amor a primeira vista.
Tento achar um ser humano disposto a me ajudar.
Os moços da apple nem me olham.
Muitos figurantes na fila do atendimento.
Espero pacientemente.
Um olho na fila, outro olho no meu lindo, grande, rose gold, milhões de gigas de memória.
20 minutos e continuo na fila.
Mais figurantes entram na loja.
Os figurantes encenam bem, e também parecem estar em um caso de amor a primeira vista.
Finalmente chega minha vez.
“-Bom dia, posso ajudá-la?”
“- Bom dia moço, eu vou levar aquele ali, lindo, grande, rose gold, milhões de gigas de memória. Aqui está o meu cartão. Minha operadora é a blá blá. Já vi online e me qualifico para pagar em 24 parcelas de $40,42. Onde eu assino?”
“-Sinto muito mas aquele ali não tem disponível. Só na primeira semana de Novembro.”
“-Não moço, você não entendeu. Desculpe, acho que fui eu que não expliquei direito. Eu quero aquele ali ó, lindo, grande, rose gold, milhões de gigas de memória. Estou esperando desde Janeiro sabe moço.”
“-Desculpe senhora, mas não temos disponível.”
Minutos de silêncio.
Como assim, não tem disponível? Vocês prometeram que lançariam em Setembro. Como que mal lança e já não tem mais? Meu finado aparelho deu o sangue para sobreviver até aqui, tudo em vão? Que descaso.
Um sentimento de revolta toma conta de mim. Maldito capitalismo. Maldito marketing. Maldita Apple. Tudo isto por uma uma merda de um telefone. Chega. Vou sabotar a Apple.
Saio de lá e vou direto para a loja mais próxima da minha operadora de telefone. Estou em uma missão. Estou assinando divórcio com Apple. Vou comprar um Android. Sim, um android. Afinal, não dizem que o sistema android é muito melhor que o da Apple? Chupa Steve Jobs, vou comprar um A-N-D-R-O-I-D. Lalá, lá lá lá. Perdeu uma cliente. Lá, lalá, lálá.
Chego na loja.
Vazia.
Sem figurantes.
Silêncio.
Vem o moço me atender:
“Bom dia, posso ajudá-la?”
“Bom dia moço, eu queria ver um Android o mais parecido possível com o lindo, grande, rose gold, milhões de gigas de memória da Apple.
“Temos este aqui.”
Hummm, tela grande.
Cores vibrantes.
Interessante…
Aperto aqui, aperto ali.
Cade o ícone da câmera?
Onde vejo as fotos?
Cadê a agenda telefônica?
Como que eu faço uma ligação?
Como que volta para a tela que eu estava antes?
Vou apertando todos os ícones que vejo.
Igual eu fazia quando jogava Street Fighter no vídeo game com meus primos.
O celular treme.
E treme de novo, e de novo.
Que coisa mais chata esta tremeção.
Vixi moço, já quebrou ou é assim mesmo?
Aparentemente cada vez que eu aperto a tecla “errada” ele treme. Como se estivesse me chamando de burra.
Aperto de novo.
“-Burra”.
E de novo.
“-Burra”.
E de novo
“-Burra, burra, burra, burra”.
Penso em arremessar esta merda deste telefone pela janela.
Olho o preço e acho melhor não.
Desisto.
7 minutos foi o suficiente para eu odiar o Android.
Poxa tio Steve Jobs, se você estiver meu ouvindo ai do céu, me desculpe. Foi mal, eu não queria ter falado aquelas coisas pra você. Eu estava nervosa. Pode perguntar para o meu marido, eu sou assim mesmo. Prometo que vou esperar até Novembro. Afinal, já estou esperando desde Janeiro, o que é um mês a mais, não é mesmo? Ficarei phoneless. Esperando ansiosamente para lhe pagar 24 parcelas de $42,40. Dinheiro este que eu deveria usar para arrumar o pará-choque do meu carro. Ou para trocar as cadeiras da minha sala de jantar que estão destruídas, ou para colocar no college fund dos meus filhos. Mas não, eu vou entregar para a Apple e seus figurantes.
Maldito.
Gênio.
Marketeiro.
Filho de uma égua.
Inovador.
Enquanto isto fico aqui igual uma idiota, esperando o meu lindo, grande, rose gold, com milhões de gigas de memória.
Loser.
Cérebro programado.
Otária.
Revolucionária do sofá.
Que decepção comigo mesma, que decepção…

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