Eu sei dele

Me pediram para falar também sobre a adolescência. Mas a verdade é que eu não sei. Não sei falar de adolescência. Bebês eu já tive três. Já adolescente, este é o meu primeiro. Tem sido tão difícil aqui em casa. Adolescência é a porta de entrada para a porta de saída. É assistir seu filho dar passos largos rumo a liberdade. Mais um paradoxo da maternidade: Fazemos de tudo para estimular e desenvolver a independência nos nossos filhos, mas quando a hora chega, por ironia, somos nós quem não estamos preparadas.
Pra mim, adolescência têm sido aceitar que não sou mais o primeiro ponto de referência. Há várias opiniões que são mais importantes do que a minha. São os amigos, as garotas, professores, e até estranhos. É como se do dia para noite, aquele menino que me achava a pessoa mais inteligente e sabida do universo, passou a me ver como alguém que “não sabe de nada”. Eu leio isto nos olhos dele.
Claro que eu entendo que é uma fase. Sei que é momentâneo, e como tudo na vida, irá passar. Mas mesmo assim dói. Dói porque têm coisas que eu preciso que ele saiba agora. Preciso que ele escute agora. Preciso que ele aprenda agora. Preciso desesperadamente que ele me olhe nos olhos e entenda cada palavra do que eu digo. E preciso pra ontem. O imediatismo nunca foi tão forte. Sabe por que? Pra ele não sofrer. Quantos são os tombos que eu estou enxergando lá na frente. Me sinto impotente. O terror de toda mãe.
E quando me pego torcendo para que esta fase passe logo. Eu me lembro que quando ela passar, estará ainda mais perto do dia que ele oficialmente deixará de ser meu (sim, eu sei que ele nunca foi).
Enquanto isto, eu fico aqui. Repetindo inúmeras vezes a mesma coisa. Rezando para que absorva alguma palavra do que eu falo. Torcendo para que ele volte a dar crédito para os conselhos que eu dou. E para que ele entenda que eu SEI. Que eu posso não saber de muita coisa. Mas que quando o assunto é ELE, sim eu sei. Ele é quem não lembra.
Ele não lembra do frio na barriga que eu estava na noite antes dele nascer.
Ele não lembra do jeito que olhou pra mim logo depois que nasceu, ou a forma como eu cochichei no seu ouvido “Oi, meu amor.”
Ele não lembra do dia que ele chorou no dentista. E das lágrimas que eu sequei quando ele brigou com o amiguinho.
Ele não lembra da angústia que sentimos no primeiro dia de aula. E de como ele levanta a sobrancelha quando esta tímido. E da euforia do primeiro gol em um jogo de futebol.
Ele não lembra das vezes que brincamos de power ranger, e das noites com virose que esperamos abraçados na fila do hospital.
Ele não lembra das festas juninas e do bigode feito com lápis, e do brilho que eu vi no olhar quando ele ganhou a bicicleta nova.
Ele não lembra que eu acompanhei a grande maioria dos passos, por todos os lados. E que eu observei olhares por todos os cantos. E que admirei gestos por todos estes anos. E que ouvi choro, grito, cantoria, e sussurro. E que senti o cheiro, os beijos, os abraços, e os dodóis. E que por isso tudo, eu sei. Eu sei dele.
E por mais que ele não lembre, no fundo não tem problema, porque eu guardo estas lembranças por mim, e por ele também.

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