Sobre a saudade

Vai chegando perto do Natal e eu vou sofrendo pela minha vó.
Não consigo nem imaginar o peso que minha vó carrega no peito. É como se a dor que tenho dentro de mim virasse um pequeno corte quando penso na ferida que minha vó deve carregar dentro de si.
Ainda no hospital, quando minha mãe estava internada, lembro como se fosse ontem. Minha tia caminhando em minha direção naquele corredor branco e frio, típico de qualquer hospital. O rosto ela dizia tudo, ali eu já sabia qual era a notícia que ela estava vindo me dar. Sai correndo em direção a porta. Precisava fugir. Não só daquele lugar, mas do mundo, da vida, de mim mesma.
Sai pela porta principal, para ver se o mundo ainda girava, segurando o grito preso na garganta. Foi quando vi minha vózinha chegando, andando com passos firmes, subindo em direção a entrada. Ela ainda não sabia. O mundo parou. Não consegui pensar, nem chorar, muito menos gritar. Como se aquele momento fosse muito mais dela do que meu. E era mesmo. Amor de mãe. A gente sabe. Por todos estes anos tenho procurado a palavra certa para falar para a minha vó. Nunca encontrei. Nunca vou encontrar. A gente carrega uma dor em comum, mas ao mesmo tempo tão diferente.
Uma vez ouvi um ditado que faz todo o sentido. Quem perde mãe ou pai vira órfão, quem perde marido ou esposa vira viúvo(a). Perder filho não tem nome. É tão absurdo, tão errado, tão contra a lei das coisas, que nem nome a gente consegue dar.
Vai chegando o natal, e eu penso na minha vó, e em todas as outras mães que eu conheço e até nas que não conheço, que tiveram que se despedir dos seus filhos.
Datas comemorativas tiram casquinhas da cicatriz. E ao mesmo tempo que meu coração quer bater mais forte, esperando ver o rostinho dos meus filhos ao encontrarem o papai Noel, ele também desacelera e perde o compasso, quando penso na minha dor e na dor que vejo nos olhos da minha vó.
A vida é mesmo um perde e ganha, e nada dura para sempre, nem a dor, nem as alegrias. Aliás, existe uma coisa que é pra sempre. A saudade. Essa é uma danada, pois fica pra sempre no coração.

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