Ei, se cuida.


Me falaram sobre mamadeiras, chupetas, e carrinhos.
Me contaram sobre marcas de fraldas, pomadas, e lenços umedecidos.
Me pediram para dormir quando o bebê dorme, para começar a amamentação em livre demanda, e para não comer feijão ou chocolate.
Me avisaram que eu deveria usar cinta, beber muita água, e acostumar o bebê com barulho.
Foi discutido até mesmo sobre métodos anticoncepcionais e a importância de implantar uma rotina.

Porém, o conselho que eu desesperadamente precisava ouvir, demorou para chegar. Algo simples, e tão óbvio, que ficou no esquecimento:

“Se cuida”.

Cuide de você.
Tome banho, lave o cabelo, tire o pijama.
Se permita ouvir seus medos e esta mistura maluca de emoções que habita o corpo de quem acabou de parir um novo ser.
Fale de outros assuntos.
Fale sobre o tempo, sobre novela, sobre a greve dos bancários, sobre aquela receita deliciosa que alguém publicou no facebook.
Fale sobre qualquer coisa. Mas fale.
Fale sobre esta inquietude que toma conta do coração.
Entenda que é OK não se sentir OK.
Você é a melhor mãe que seu filho pode ter, e que isto já basta.
Respire.
Respire novamente.
Feche os olhos.
Escute seu coração.
Chore.
Chore um pouco mais.
É normal. Vai passar.
Saia de dentro de casa. Vá a padaria, ao parque, a casa da sua vó, da mãe Joana, vá para qualquer lugar, mas vá!
Estes dias longos, que se misturam com noites, e que se fazem dias novamente, eles ficarão para trás. E você já nem se quer irá se foi um sonho, se estava anestesiada, ou que ralhos foi este furacão que invadiu a sua vida.
E daqui alguns anos, numa quarta-feira qualquer, perto do natal, você encontra uma foto.
Lá estava você, cabelo sem lavar, olheiras aparentes, rosto cansado, carinha arredondada. Segurando aquela mini pessoa. Que saudade. Quanto amor!
Você então se olha novamente, e reconhece a fragilidade e o medo no olhar daquela menina mulher. Tão forte e tão indefesa. E se tivesse o poder de voltar por 5 segundos para aquele momento, você iria correndo. E a ajeitaria os cabelos, os colocando delicadamente atrás da orelha. Lavaria o rosto cansado, daria um abraço apertado, um beijo, e sopraria no seu ouvido:
“- Ei, se cuida”.

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