O almoço 

Hora do almoço.
O que geralmente é um momento prazeroso, hoje foi um desafio.
A materndiade é assim mesmo. Difícil de prever.
Hoje meu filho me diz que só quer arroz.
Diante de um prato colorido, que me custou horas de preparo, e uma cozinha de ponta cabeça, hoje ele só quer arroz.
Eu insisto.
Ele rebate.
Os ânimos vão se alterando.
Ele nunca teve destas coisas, por que isto agora?
Eu tento mais uma vez.
Ele reage.
Não. Aqui em casa não tem esta de comer só arroz.
Eu quase me descontrolo.
Eu sei que não é motivo. Sei que é só mais uma gota, uma gotinha enchendo o copo de uma mãe que anda exausta.
E ele continua a repetir: “Só arroz.”
Algo pequeno que vai me corroendo.
Eu paro. Observo sua expressão firme. As palavras saindo da boca de um mini ser que está  decidido a enfrentar esta batalha.
E é sempre assim, em qualquer luta na maternidade. Por menor ou maior que seja. Eu posso gritar. Eu posso encher a casa de medo, rechear a vida das crianças com ameaças, buscando conformidade.
Posso deixar o ambiente carregado com tudo aquilo que em geral não combina com o meu coração materno. E assim, no grito, eu conseguirei o que quero.
Mas lá no meu íntimo, eu acredito que este não é o caminho. Pelo menos não o que eu quero seguir.
Não hoje. Não desta vez.
Eu dou um passo para trás, recolho minhas garras.
Às vezes é quase impossível manter a paz. Eu não sou perfeita.
Mas quando tenho estes pequenos momentos de clareza, eu posso fazer uma escolha. A decisão está nas minhas mãos. Entre eu e ele, eu sou a capaz de tomar decisões com discernimento.
E se eu não consigo evitar algumas atitudes dele, ainda assim eu posso controlar a minha respiração.
Eu respiro fundo. 
Meu filho me observa.
Eu também o observo, sem olhar diretamente. Olho sem olhar. Daquele jeito que nós mães fazemos.
E aos poucos a necessidade de que ele faça tudo do jeito que eu quero, de que coma tudo que tem no prato, vai embora.
É só um dia. É só um dia difícil. É só uma refeição.
Apenas um simples, ridículo, besta, grão de arroz.
Respiro mais uma vez. Dou um meio sorriso.
E assim, sem eu esperar, ele pega uma colher de espinafre e põe na boca.

2 comentários sobre “O almoço 

  1. Me tocou profundamente está postagem. Com um casal de filhos, já me vi diversas vezes nessa situação. Nem sempre consegui ser racional e perceber que era apenas “um grão de arroz”! Teria evitado muitas páginas com garranchos, no nosso pequeno livro familiar!!!

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  2. Bom dia! Gostaria de compartilhar um trecho de um livro que estou lendo, cabe direitinho com esse texto, sei que você sabe o seu valor mas infelizmente nem todas as mamães se sentem assim.

    O trabalho da mãe muitas vezes se a figura, aos seus próprios olhos, sem importância. Raras vezes é apreciado. poucos sabem os outros de seus muitos cuidados e encargos. Seus dias são ocupados com a série de pequeninos deveres, exigindo todos pacientes esforço, domínio de si mesma, tato, sabedoria e abnegado amor; toda via, ela não pode se vangloriar do que fez como de algum importante feito. Fez apenas com que tudo corresse suavemente no lar; muitas vezes fatigada e perplexa, esforçou-se por falar bondosamente as crianças, mantê-las ocupadas e satisfeitas, guiar os pequeninos pés no caminho reto. Senti que nada fez. Assim não é, entretanto. Anjos do céu observam a mãe, fatigada de cuidados, notando suas responsabilidades dia a dia. Seu nome pode não ser ouvido no mundo, acha-se, porém, escrito no livro da vida do cordeiro. ❤❤❤
    A ciência do Bom Viver pág 164

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