A kombi e a última vez

Esta é a história de um menino e a sua kombi.
Uma kombi de alumínio, destas simples que a gente compra em qualquer loja de brinquedos.
Aonde estava o menino, lá estava a kombi.
Todo dia era a mesma coisa. Eu o carregava no colo, enquanto segurava a kombi com a outra mão. E foi assim por muito tempo. Até que acabou.
Não lembro exatamente quando ele deixou a kombi de lado.
Incrível como a gente esquece. Como passa despercebido.

Outro dia, no primeiro dia da pré escola, ele apertava a minha mão forte. Como se o porto seguro estivesse ali, entrelaçado em cada um dos meus dedos.
Até que ele a soltou. E não a segurou mais. Não do mesmo jeito.
Já não sei quando foi a última vez que senti aqueles dedinhos segurando os meus.
Você vê só? Existe sempre uma última vez. E a gente nem imagina que a última vez pode ser esta. Não tem como adivinhar. Você só sabe depois que já se foi.

Houve um tempo em que nós deitávamos juntos no sofá. Eu cantava, ele ouvia. Até que um dia ele parou de sentar no meu colo. E eu parei de cantar.
A mais pura realidade.
Existe um dia no calendário que será a última vez em que você irá segurar o seu filho apoiadinho no seu quadril. Será a última vez que os seus braços se encaixarão perfeitamente em volta daquela criança, da sua criança. E assim, nesta mesma tarde, você a colocará no chão e nunca irá carregá-la novamente. Nunca.
Sinto saudades de todas estas últimas vezes. Estas que passaram sem que eu percebesse. De todas estas coisas corriqueiras, que se foram e que não voltam mais.
Até as madrugadas em claro. Aquelas onde a vontade de desaparecer se misturava com o amor que eu sentia ao ver aquele sorriso. As noites foram embora. E eu não consigo recapturar a imagem da última vez que o tirei do berço.
Houve uma última vez. Sempre há a última vez. Nós é que não temos a consciência.

Ele cresceu, cresceu demais. Já não vejo aquele menino com a kombi.
Um dia eu estava diante de braçinhos que se esticavam para cima, em busca de colo. E agora tudo o que vejo são olhos nivelados na mesma altura dos meus.
E assim, o meu menino há muito tempo já não cabe no meu colo. Já se foi nossa última vez.
Já não o seguro mais. Nem ele, e nem a kombi.

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