Milagres

E enquanto eu empurro ela na balança de novo, e novamente, e mais uma vez, me vem à cabeça todas as mães que tiveram que se despedir dos seus filhos cedo demais. E em silêncio meu coração aperta.

De madrugada, quando o meu do meio decide que quatro da manhã é um bom horário para começar o dia, eu respiro fundo. Eu reviro o meu corpo em busca de disposição. E eu o faço pensando nelas. Nestas mães.

Nos longos fins de tarde, com uma criança chorando e escalando as minhas pernas enquanto eu corto cenouras em finas rodelinhas, eu procuro sorrir. Em homenagem à elas.

De manhã cedo, quando minha caçula se revolta mais uma vez contra a cadeirinha do carro, eu respiro. Respiro fundo. E penso nelas.

Quando o feijão queima, quando eu abro a porta e encontro a lancheira com a lição de casa em cima da mesa, quando o xixi vaza na roupa, quando me perguntam a mesma coisa pela décima vez, quando tudo parece ser um complô contra a forma que eu quero maternar. Quando nada sai do jeito que eu programei. Em todos estes momentos eu me esforço bravamente para lembrar delas. 

Todas estas mães que dariam cada pedacinho da alma para estar vivendo tudo isso. E que por motivos que ainda não conseguimos compreender, não tiveram esta chance.

Que presente é este que me é dado.
Que oportunidade é esta que tenho em minhas mãos.
De criar meus filhos. De viver com eles as manhã escuras, as frustrações, o caos, o cansaço, o choro, as brigas, as batalhas. 
E assim eu consigo lembrar que tudo não passa de uma grande benção.
Milagres.
Meus problemas nada mais são que milagres.
E por eles, eu sou grata.

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A grande certeza

Se existe amor maior eu desconheço.
Não habita este mundo.
Não cabe na alma.
Pula do coração.
Extrapola pelo corpo.
Escapa pelos dedos.

É pesado. É muito pesado.
Não faz parte da gente.
Vem de antes, é mais forte, mais antigo.
Mais puro.
Não pertence à esta terra de valores invertidos.
Tem outra essência.
Vibra de forma diferente.

É fonte nascente. Base da empatia, da compaixão, da ternura.
Independe de combustível, incentivo ou recompensas.
O mais simples, o mais intenso, o mais completo.
É invisível. Tem asas. Viaja milhas e milhas.
Se multiplica. 
Nele mora todos os poderes. 
O da garra, da força, do ânimo, do estímulo. 

Há quem diga que possa curar. 
E quando a cura não é possível, ele é reconfortante. Ilumina, traz esperança.
É acalento. É certeza. É a mais absoluta certeza. 
Talvez uma das únicas que se tenha nesta vida.
A mais doce e a mais bela certeza.
A do amor. A de ser amado. A do amor de mãe.

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Faz parte de ser mulher 

Faz parte de ser mulher. As vezes penso que nossos corações vivem, de certa forma, apertados. 
Estamos sempre entre a cruz e a espada. 
Seja tentando defender um filho, sem poder tirar a autoridade do marido, enquanto ele da aquela bronca. 
É a correria para terminar o relatório do trabalho que precisa ser entregue na exata semana que o caçula ficou doente. 
É arrumar mil desculpas para defender um do outro, para safar a diarista que faltou, para encobrir a bagunça que o mais velho deixou no quarto. 
É lidar com o desapontamento da criança que terá que sair mais cedo da festinha do amigo, só para que vocês possam passar também no chá de bebê da sua cunhada.
E nunca acaba.
Há sempre um conflito. 
De tempo, de necessidades, de quem precisa mais de você.
Um constante cuidado para garantir o bem estar de todos, para não magoar ninguém, não desapontar, não desmerecer.

Ser mulher é ser equilibrista. E requer tanto, mas tanto de nós.
E tem dias que fica pesado. 
É mais do que um jogo de cintura, é um jogo de paz.
Ser mulher é segurar nas mãos, nos ombros, no peito, a tranquilidade e a harmonia entre aqueles que amamos. 
É silenciar mesmo quando a vontade é de berrar aos quatro cantos. 
É berrar aos quatro cantos mesmo quando a vontade é de silenciar. 

É engolir uma lagoa de sapos para poupar a todos a guerra com os leões.
Infelizmente, ou felizmente, este é um ponto que o nosso movimento feminista jamais conseguirá mudar.
Porque colocando o preconceito e todo o resto de lado, lutar pelo amor e pela paz é da nossa natureza.
Ser mulher pesa, mas me enche de orgulho.
Somos super heroínas. Todas nós. 
Somos nós quem mantemos o mundo girando em harmonia.
E fazemos tudo isto quietas, sem grandes alarmes, sem barulho.
Somos nós que de dentro das nossas casas fazemos milagres. 
Todos os dias.

Recompensas

E quando você se perde, e já não encontra motivo para repetir tudo aquilo que você faz e que aparentemente ninguém vê, chegam as recompensas.
São premiações que surgem quando você menos espera. 

Elas aparecem nos dias em que a louça da pia está prestes a encostar no teto. Ou nos dias em que o estoque de paciência acaba logo pela manhã e não há a menor previsão de reposição. E até mesmo nas tardes onde choro se transforma em esporte olímpico e o pessoal da sua família garante a classificação logo na primeira etapa.

Estes presentes, que fazem bem para a alma e o coração, vêm nas mais simples formas. São gargalhadas inesperadas, daquelas onde você vê a inocência escrita nos olhos da sua criança. São beijos onde pequenos lábios se juntam para fazer o bico mais perfeito que já se viu. São sinfonias de “mamãe eu te amo”, são abraços de urso, e sorrisos sem graça.

Às vezes a recompensa chega como voz doce, que te enche de orgulho por ser prova do seu cansativo mas gratificante trabalho: “Por favor”, “obrigada”, “com licença”.
Ela vem em forma de braçinhos se esticando pra cima, em direção ao céu. É quando você percebe que para aquela criança, o céu é nada mais nada menos do que você.
E é aí que a vida ganha significado.
Vivemos por momentos assim.

Empilhamos roupas, juntamos brinquedos, ficamos acordadas por noites e noites, choramos no carro, sentimos culpa, fazemos planos.
Pesquisamos sobre alimentação saudável, protetor solar, carrinhos e chupetas. Perdemos a tranquilidade obcecadas por pequenos detalhes que passaram a ser tão, mas tão importantes.
Damos tudo que mora dentro de nós e até um pouco mais, só por estes momentos.

E então, as duas da manhã, trocando uma fralda que vazou não somente na roupa mas também no lençol,  o seu presente chega em forma de riso nos olhos. Olhos que iluminam qualquer escuridão que um dia te amedrontou.

E te bate de frente. Te desarma, te amolece. Te derruba. Toma conta.

Basta 5 segundos assim, no meio de um dia catastrófico, para que você se sinta capaz de seguir em frente. De enfrentar o mundo.
Presente divino? É mais do que isto.
É quando o amor de mãe e o amor de Deus entram na mais perfeita sintonia. E assim, tudo vale a pena.

Maternidade Real

 

A internet está recheada de fotos de crianças felizes, educadinhas e contentes. Todas nós mães postamos fotos dos nossos filhos fazendo as coisas certas. Aquilo que queremos que eles façam. Fotos deles cozinhando, lendo, cooperando. É uma sensação maravilhosa quando nossos filhos fazem e agem da forma que esperamos. Trabalhamos duro, todos os dias do ano para isto. E quereremos mostrar para o mundo a inteligência, a fofura, a maravilha que são os nossos pequenos. 

Mas a grande verdade é que estes momentos refletem somente 20% da realidade. E talvez seja por isso que a gente se agarra tanto neles. Porque os outros 80%, aaaah os outros 80… Eles não são tão perfeitos. Aliás, os outros 80 são show de comédia misturado com sexta feira treze.

É choro, é grito para calçar o tênis, é luta de jiu-jitsu para trocar a fralda. É birra para colocar a fantasia de tigre-de-bengala feita com materiais recicláveis que a escola pediu para amanhã. É a terceira guerra mundial contra o sono, é confusão para guardar os brinquedos que se reproduzem na calada da noite. É comida que vai para o chão, são pequenos grandes acidentes da esfera gastrointestinal no momento de sair de casa. Em resumo, os outros 80% são filhos apertando o seu botão do limite da paciência pela 10ª vez na manhã.

É quando fica cansativo.

Nós sabemos que há uma lista de coisas que deveríamos estar fazendo. Que se deve escovar os dentes de cada uma das crianças 3x por dia. Que é importante separar 30 minutos para leitura. Que a refeição ideal possui um alimento de cada grupo. Sabemos de tudo isto é muito mais E mesmo assim, há noites em que colocamos as crianças na cama sem ter feito um terço da lista. Dias onde você procura aquela gotinha, aquele chorinho extra de energia, de paciência, de disposição. Mas ele não vem. Você não o encontra mais em você. E isto não fica registrado em foto, nem em vídeo. Não é publicado no Instagram nem no Facebook.

Mas eu te prometo, acontece com absolutamente todo mundo. Porque isto, isto minha amiga, tem nome, e se chama maternidade.

Excelente Mãe 

Dias de dente nascendo, dias de virose, dias de ciúmes, de testar limites. Dias de “vai escovar o dente, vai escovar o dente, vai escovar o dente”. 

Dias de “coma todo o brócolis, coma todo o brócolis, coma todo o brócolis”, dias onde repetir inúmeras vezes a mesma coisa é mais difícil do que o normal.
Dias em que a papinha sai quente demais, e o mais novo berra sem querer esperar. 

E o interfone toca. E o do meio precisa usar o banheiro. E já é a hora do dentista do mais velho. E a cozinha está de ponta cabeça. 
A cozinha? Quem você quer enganar? 
A casa toda está de pernas para o ar.
E tudo que você quer é se trancar sozinha rodeada por 4 paredes.

Sem ninguém te chamando. Sem ninguém pedindo água, ou comida ou brincadeiras. Cinco minutos. Cinco meros minutos que podem salvar o dia. Que te salvam de falar o que você não quer. De pensar o que não condiz com o seu coração. De ser uma mãe que você não é.
Closet, dispensa, banheiro.
Se você estiver precisando chorar, chore.
Se você precisa se trancar no banheiro e gritar, minha amiga, se tranque naquele banheiro e grite.
Excelentes mães também se trancam no banheiro.

Hoje eu quero que você lembre que quem seus filhos irão ser, e o destino que eles irão traçar, poderá mudar o mundo. E assim, você, de dentro da sua casa, pode mudar o mundo, mudando o mundo deles.

É cansativo, é um mar, um tsunami de emoções. É frustrante, e exige demais de tudo aquilo que você tem. Às vezes faltam palavras no dicionário. A maternidade suga cada gota de paciência, exalando todas as formas de amor. 

Mas se você está guiando o seu filho para o caminho do amor, da gentileza, da compaixão, pouco importa como você o faça, ou quantas vezes por dia você se tranca no banheiro.

Você é uma excelente mãe. E isto basta. 

O ladrão da felicidade

Eu sei, seu filho de quase 4 ainda não dorme a noite inteira enquanto o recém nascido da vizinha dorme 12 horas seguidas.
Eu sei, seu bebê não come mais que 3 colheradas da papinha enquanto o filho da cunhada do seu tio come 13 brócolis por dia.

Comparação é o ladrão da felicidade.

Eu sei, você não lava o cabelo direito há 3 dias enquanto a fulana que você segue no Instagram vai pra academia, salão, dentista, mercado, e ainda publica dicas sobre moda.
Eu sei, seu bebê ainda não engatinha mas o menino de 8 meses da prima do seu marido já anda, da piruetas e se duvidar já até nada de costas.

Comparação é o ladrão da felicidade.

Eu sei, você mal entra nos seus jeans antigos enquanto a mãe de trigêmeos na salinha do pediatra parece ter a bunda mais dura que o seu cotovelo.
Eu sei, você está sempre atrasada, esquecida, cansada. E sua sogra te lembra, mais uma vez, que fazia tudo o que você faz e ainda usava fralda de pano e algodãozinho com água e sabão.

Comparação é o ladrão da felicidade.

Eu sei, você ficou 39 horas em trabalho de parto enquanto a filha da dentista, que nem sabia que estava grávida, foi usar o banheiro e pariu.
Eu sei, seu marido não acorda de madrugada enquanto o marido da enteada do motorista do Uber faz questão de deixar a esposa descansar.

Comparação é o ladrão da felicidade.

Eu sei, você só lembra de descongelar o peito de frango 20 minutos antes do jantar, enquanto a mãe da coleguinha do ballet cozinha cenouras em formato do castelo da Elza.
Eu sei, você não tem forças para sair de casa no Domingo de manhã enquanto a irmã da sua concunhada leva os filhos na feira, no parque, na praia, na chuva, na rua, na fazenda.

Comparação é o ladrão da felicidade.

Eu sei, você chora no banho com a certeza de que esta fazendo tudo errado, enquanto todas as outras mães citadas acima também choram no banho com a certeza de que estão fazendo tudo errado.

E ainda assim: Comparação é o ladrão da felicidade.