Milagres

E enquanto eu empurro ela na balança de novo, e novamente, e mais uma vez, me vem à cabeça todas as mães que tiveram que se despedir dos seus filhos cedo demais. E em silêncio meu coração aperta.

De madrugada, quando o meu do meio decide que quatro da manhã é um bom horário para começar o dia, eu respiro fundo. Eu reviro o meu corpo em busca de disposição. E eu o faço pensando nelas. Nestas mães.

Nos longos fins de tarde, com uma criança chorando e escalando as minhas pernas enquanto eu corto cenouras em finas rodelinhas, eu procuro sorrir. Em homenagem à elas.

De manhã cedo, quando minha caçula se revolta mais uma vez contra a cadeirinha do carro, eu respiro. Respiro fundo. E penso nelas.

Quando o feijão queima, quando eu abro a porta e encontro a lancheira com a lição de casa em cima da mesa, quando o xixi vaza na roupa, quando me perguntam a mesma coisa pela décima vez, quando tudo parece ser um complô contra a forma que eu quero maternar. Quando nada sai do jeito que eu programei. Em todos estes momentos eu me esforço bravamente para lembrar delas. 

Todas estas mães que dariam cada pedacinho da alma para estar vivendo tudo isso. E que por motivos que ainda não conseguimos compreender, não tiveram esta chance.

Que presente é este que me é dado.
Que oportunidade é esta que tenho em minhas mãos.
De criar meus filhos. De viver com eles as manhã escuras, as frustrações, o caos, o cansaço, o choro, as brigas, as batalhas. 
E assim eu consigo lembrar que tudo não passa de uma grande benção.
Milagres.
Meus problemas nada mais são que milagres.
E por eles, eu sou grata.

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Salvei o arroz

Sabe quando a sua casa parece que vai desmoronar?
Fim de tarde, criança chorando, arroz secando na panela, secretária do dentista ligando para confirmar a consulta, filho do meio berrando de fome, o marido perguntando se você viu a chave L (como se você soubesse que ralhos é uma chave L). Toda mãe conhece bem estes momentos.
Situações onde você só não cai dura estatelada no chão porque não pode deixar queimar o jantar.

E diante deste caos, lá vem o adolescente. Ele vê você correndo de um lado para o outro, descabelada, abrindo tampa de panela, atendendo o telefone, levantando as almofadas do sofá em busca da chave V, aliás L, que você nem sabe que cara tem. 
Pois bem, o adolescente vê tudo isso, e mesmo assim aparece na sua frente e diz:

-Mãe eu tava pensando, este ano para o meu aniversário…

Pausa para uma informação importante. O aniversário dele é daqui s-e-t-e meses.

-… Eu vou querer de presente esta chuteira aqui… (mostra a foto no laptop que segura com as mãos).

Sinto o cheiro do arroz queimando. 
O adolescente continua:

-Será que você pode adiantar o presente e comprar já? Tá aqui ó. No amazon.

Ele fica ali parado, esperando a resposta.
O cheiro do arroz queimando se intensifica. O choro do outro filho ecoa no ouvido juntamente com o barulho do marido revirando a casa em busca da chave W.
Que hora boa para pedir presente de aniversário adiantado.

Juro que gostaria de ter uma câmera escondida para ver a minha cara diante desta pergunta, neste momento tão, tão, digamos assim, oportuno.
Dentro de mim eu me pergunto se isso é vida real. 
Não pode ser.
Devo estar participando de algum reality show. 
É um experimento científico. Só pode.
Conto até quatro mil e vinte seis. 
Meu marido anuncia que achou a chave M.
Corro em direção ao arroz.
O adolescente vem atrás, empurrando o laptop em minha direção.

Eu ri. Aliás eu gargalhei. Neste dia em particular eu não surtei. Todos os outros dias eu teria tido um ataque. Mas ali a situação era tão absurda que me deu crise de riso. Só consegui responder:
-Depois, depois…
Ufa, deu tempo, salvei o arroz.

Por favor, me falem, é só aqui em casa que isso acontece?

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Te pegar no colo


Eu ia dobrar a pilha de roupas e guardar nos armários.
Mas eu te peguei no colo.

Eu estava pronta para responder os e-mails, e já havia até digitado algumas poucas palavras.
Mas eu te peguei no colo.

Eu precisava tanto tomar um banho longo, sentir a água quente escorrer pelo meu pescoço cansado.
Mas eu te peguei no colo.

Tocou o telefone e eu queria muito conversar com aquela amiga especial que mora longe.
Mas eu te peguei no colo.

Eu ia sentar, fechar os olhos, e esvaziar a mente apenas por um único minuto.
Mas eu te peguei no colo.

Eu precisava abrir a pilha de correspondências que a dias está sobre a mesa.
Mas eu te peguei no colo.

Eu queria arrumar a cama, fazer as unhas, levar o carro para lavar, juntar os brinquedos do chão.
Mas nada disso aconteceu, porque ao invés, eu te peguei no colo.

Por vezes sinto crescer a frustração de não conseguir completar o que planejo, mas hoje, hoje não. Hoje eu escolhi me render, não deixar a ansiedade entrar. E já não importava mais os emails, nem o jantar, nem o banho, e muito menos as correspondências. Minha verdadeira satisfação, meu amor, minha alegria, está bem aqui, debaixo dos meus olhos, tão pertinho de mim. E a paz veio e tomou conta do meu coração, tudo por causa de uma simples decisão: Te pegar no colo.

Maternidade Real

 

A internet está recheada de fotos de crianças felizes, educadinhas e contentes. Todas nós mães postamos fotos dos nossos filhos fazendo as coisas certas. Aquilo que queremos que eles façam. Fotos deles cozinhando, lendo, cooperando. É uma sensação maravilhosa quando nossos filhos fazem e agem da forma que esperamos. Trabalhamos duro, todos os dias do ano para isto. E quereremos mostrar para o mundo a inteligência, a fofura, a maravilha que são os nossos pequenos. 

Mas a grande verdade é que estes momentos refletem somente 20% da realidade. E talvez seja por isso que a gente se agarra tanto neles. Porque os outros 80%, aaaah os outros 80… Eles não são tão perfeitos. Aliás, os outros 80 são show de comédia misturado com sexta feira treze.

É choro, é grito para calçar o tênis, é luta de jiu-jitsu para trocar a fralda. É birra para colocar a fantasia de tigre-de-bengala feita com materiais recicláveis que a escola pediu para amanhã. É a terceira guerra mundial contra o sono, é confusão para guardar os brinquedos que se reproduzem na calada da noite. É comida que vai para o chão, são pequenos grandes acidentes da esfera gastrointestinal no momento de sair de casa. Em resumo, os outros 80% são filhos apertando o seu botão do limite da paciência pela 10ª vez na manhã.

É quando fica cansativo.

Nós sabemos que há uma lista de coisas que deveríamos estar fazendo. Que se deve escovar os dentes de cada uma das crianças 3x por dia. Que é importante separar 30 minutos para leitura. Que a refeição ideal possui um alimento de cada grupo. Sabemos de tudo isto é muito mais E mesmo assim, há noites em que colocamos as crianças na cama sem ter feito um terço da lista. Dias onde você procura aquela gotinha, aquele chorinho extra de energia, de paciência, de disposição. Mas ele não vem. Você não o encontra mais em você. E isto não fica registrado em foto, nem em vídeo. Não é publicado no Instagram nem no Facebook.

Mas eu te prometo, acontece com absolutamente todo mundo. Porque isto, isto minha amiga, tem nome, e se chama maternidade.

O ladrão da felicidade

Eu sei, seu filho de quase 4 ainda não dorme a noite inteira enquanto o recém nascido da vizinha dorme 12 horas seguidas.
Eu sei, seu bebê não come mais que 3 colheradas da papinha enquanto o filho da cunhada do seu tio come 13 brócolis por dia.

Comparação é o ladrão da felicidade.

Eu sei, você não lava o cabelo direito há 3 dias enquanto a fulana que você segue no Instagram vai pra academia, salão, dentista, mercado, e ainda publica dicas sobre moda.
Eu sei, seu bebê ainda não engatinha mas o menino de 8 meses da prima do seu marido já anda, da piruetas e se duvidar já até nada de costas.

Comparação é o ladrão da felicidade.

Eu sei, você mal entra nos seus jeans antigos enquanto a mãe de trigêmeos na salinha do pediatra parece ter a bunda mais dura que o seu cotovelo.
Eu sei, você está sempre atrasada, esquecida, cansada. E sua sogra te lembra, mais uma vez, que fazia tudo o que você faz e ainda usava fralda de pano e algodãozinho com água e sabão.

Comparação é o ladrão da felicidade.

Eu sei, você ficou 39 horas em trabalho de parto enquanto a filha da dentista, que nem sabia que estava grávida, foi usar o banheiro e pariu.
Eu sei, seu marido não acorda de madrugada enquanto o marido da enteada do motorista do Uber faz questão de deixar a esposa descansar.

Comparação é o ladrão da felicidade.

Eu sei, você só lembra de descongelar o peito de frango 20 minutos antes do jantar, enquanto a mãe da coleguinha do ballet cozinha cenouras em formato do castelo da Elza.
Eu sei, você não tem forças para sair de casa no Domingo de manhã enquanto a irmã da sua concunhada leva os filhos na feira, no parque, na praia, na chuva, na rua, na fazenda.

Comparação é o ladrão da felicidade.

Eu sei, você chora no banho com a certeza de que esta fazendo tudo errado, enquanto todas as outras mães citadas acima também choram no banho com a certeza de que estão fazendo tudo errado.

E ainda assim: Comparação é o ladrão da felicidade.

É por causa do amor

Eu luto, tomo decisões difíceis, eu choro. Eu esquento mamadeiras, acordo com o Sol, e fico acordada até muito mais tarde do que deveria, para aproveitar o silêncio. É por causa do amor.

Eu perco o sono por uma febre que não baixa. Eu checo a respiração. Eu pesquiso, pergunto, aprendo, e as vezes acho que estou fazendo tudo errado. É por causa do amor.

Eu coloco na cadeira do carro, prendo o cinto, solto o cinto, e tiro da cadeira. Agora, e de novo, e mais uma vez. Eu preparo o banho, faço malabarismo com sacolas de mercado, e faço o jantar com crianças brincando no chão da cozinha. É por causa do amor.

Eu faço a dança do “comeu tudo” todos os dias quando me deparo com o pratinho vazio. Eu prendo cabelos finos, guardo meias enroladinhas nas gavetas, e ajeito o cobertor que é para cobrir bem os pézinhos. É por causa do amor.

Eu vejo meus pequenos conquistando independência, enquanto lembro de quando ainda cabiam em apenas um dos meus braços. E seguro o choro que é para ninguém ver. É por causa do amor.

Eu puxo assunto com um adolescente que responde com palavras monossilábicas. Eu me afasto, respeito, me aproximo de novo. Quantas vezes forem necessárias. É por causa do amor.

Eu limpo a mesa de jantar com uma criança no colo, faço cócegas, digo que não pode. Eu vou para o parque, faço torres de lego, e lavo montanhas de roupas. É por causa do amor.

Eu estipulo regras sobre eletrônicos, sou paranóica com alimentos orgânicos, com os benefícios do alho, do sal do himalaia, com a ação antioxidante da canela, e o poder dos óleos essenciais. É por causa do amor.

Eu tomo café enquanto corro para o banheiro com uma criança que precisa fazer xixi. Eu coloco a minha mão bem quando a cabeça está prestes a bater na quina da mesa. Eu pego no colo, canto, e faço cafuné. É por causa do amor.

Eu me questiono, sinto medo, ansiedade, cansaço, solidão. É por causa do amor.

Eu agradeço, olho para o céu como quem procura olhar nos olhos de Deus, e me pergunto como consegui ser tão abençoada. E choro de alegria. É por causa do amor.

E no final das contas, eu percebo que os meus “problemas” não são nada mais do que presentes, frutos do motivo mais nobre: É por causa do amor.

O falso malcriado

Sabe aquela cena de uma criança de dois anos chorando no chão em público? Enquanto as pessoas (e eu já fui uma destas pessoas) passam olhando e pensando:

“- Afe que criança malcriada. Cade a mãe que não faz nada?”

Pois bem, muitas vezes não é a criança que é malcriada, somos nós adultos que precisamos de uma aulinha sobre o cérebro infantil. Não sou nenhuma especialista no assunto mas já li bastante a respeito, e aqui está um pouco do que aprendi:

Existem motivos fisiológicos que levam crianças de 1 a 3 anos a chorarem compulsivamente quando algo não sai da forma como elas imaginavam. Dentre estes motivos estão:

1. Imagine que você está na festa de despedida de uma amiga que está indo morar fora. Você está feliz pois sabe que ela está realizando um sonho, mas ao mesmo tempo está triste porque sabe que sentirá saudades.
Com crianças pequenas esta divisão de emoções não existe. Você ou está feliz ou está triste. O cérebro nesta idade ainda não sabe balancear os dois. Pelo contrário, em situações onde dois sentimentos opostos estão presentes, o cérebro se sente “sobrecarregado”. Isto causa stress, que causa choro.

2. O córtex pré-frontal, parte do cérebro responsável pelo controle das emoções, começa a amadurecer mais aos 4 anos de idade. Ou seja, como esperar que uma criança de 2 anos controle suas emoções? É fisiologicamente desafiador. É como brigar com um peixe por ele não saber andar.

3. Nós adultos temos a incrível habilidade de nos expressar com palavras. Sabemos explicar o que sentimos. Das mais complexas sensações como ansiedade e insegurança, até as coisas do cotidiano como cansaço e indisposição. Crianças pequenas não sabem classificar aquilo que sentem. Imagine o quanto frustrante deve ser não conseguir dizer aos responsáveis pelo seu bem estar que você está sentindo medo. Não saber nomear o que sente causa stress, que mais uma vez, causa choro.

4. Para que o cérebro possa decidir como agir diante determinadas situações, ele se baseia em experiências anteriores. Crianças pequenas não possuem muitas experiências, portanto várias das situações em que elas se encontram são novas. Tudo que é novo é visto como um desafio. Desafio gera stress. E em crianças, stress gera choro.

E por que stress causa choro? Em todas estas situações, o excesso de informação faz com que o cérebro da criança coordene o aumento de cortisol no corpo. Cortisol também é conhecido como hormônio do stress. Ele causa o aumento dos batimentos cardíaco, da pressão sangüínea, e traz aquela sensação de ansiedade e inquietude. Crianças pequenas não sabem lidar com estes estímulos, e portanto respondem chorando.

Claro que cabe a nós, mães e pais, guiarmos e facilitarmos o aprendizado dos nossos filhos. Ensinar o que consideramos certo e errado, desde pequeno. Repreender quando for necessário, explicar sobre conseqüências, ensinar, dar exemplo, estimular para que a criança reflita. Mas infelizmente (ou felizmente) gritar, mandar “engolir o choro”, “pegar na marra”, com crianças muito pequenas, não resolve. Então a próxima vez que seu filho de 2 chorar compulsivamente por algo que você considera “besteira”. Lembre-se que ele não está sendo mal. Ele está apenas sendo “dois”.