As vezes eu choro

Sabe bebê, às vezes, em silêncio eu choro. Eu choro por você.

No carro, enquanto faço o almoço, no chuveiro, assistindo o noticiário, ouvindo música.

Em silêncio eu choro.

Em silêncio eu choro porque este encontro é tão antigo e minha alma é tão nova, que desmonta.

Em silêncio eu choro porque esta bênção é tão grande e eu sou tão pequena, que não sei agradecer.

Em silêncio eu choro por preocupações, por insegurança, por culpa. E por todas estas coisas que chegaram junto ao seu nascer.

Em silêncio eu choro por causa do cheiro nos seus cabelos, e o brilho nos seus olhos, e os seus dedinhos pequenos.

Em silêncio eu choro porque este amor é tão imenso, que é muito. Demais para levar.

Em silêncio eu choro porque a sua vida me transformou. E eu sinto saudades de mim. Uma desesperada falta de mim mesma.

Em silêncio eu choro por causa da pureza que você carrega no peito.

Em silêncio eu choro porque você é tão inocente e há tantas coisas lá fora, e eu tenho medo.

Em silêncio eu choro porque você me faz ter esperança. E piedade. E empatia. E compaixão. E sentimentos que não parecem caber.

Em silêncio eu choro por causa da fé desbravadora que você me trouxe.

Em silêncio eu choro porque esta responsabilidade é tão pesada e meus ombros são tão fracos, que eu temo.

Em silêncio eu choro porque sua simples existência me traz felicidade. Paz, plenitute, alegria. E sensações que ainda não foram nomeadas.

Em silêncio eu choro por mim, e por você, e por outras mães, e por outros filhos. Por tudo que veio antes e por tudo que virá depois. E assim, em silêncio eu choro meu bebê.

Eu choro por tristes, belas, bobas, magníficas razões que você jamais conseguirá entender, até que você tenha um filho.

Autora: @a.maternidade (Instagram) – Rafaela Carvalho

O almoço 

Hora do almoço.
O que geralmente é um momento prazeroso, hoje foi um desafio.
A materndiade é assim mesmo. Difícil de prever.
Hoje meu filho me diz que só quer arroz.
Diante de um prato colorido, que me custou horas de preparo, e uma cozinha de ponta cabeça, hoje ele só quer arroz.
Eu insisto.
Ele rebate.
Os ânimos vão se alterando.
Ele nunca teve destas coisas, por que isto agora?
Eu tento mais uma vez.
Ele reage.
Não. Aqui em casa não tem esta de comer só arroz.
Eu quase me descontrolo.
Eu sei que não é motivo. Sei que é só mais uma gota, uma gotinha enchendo o copo de uma mãe que anda exausta.
E ele continua a repetir: “Só arroz.”
Algo pequeno que vai me corroendo.
Eu paro. Observo sua expressão firme. As palavras saindo da boca de um mini ser que está  decidido a enfrentar esta batalha.
E é sempre assim, em qualquer luta na maternidade. Por menor ou maior que seja. Eu posso gritar. Eu posso encher a casa de medo, rechear a vida das crianças com ameaças, buscando conformidade.
Posso deixar o ambiente carregado com tudo aquilo que em geral não combina com o meu coração materno. E assim, no grito, eu conseguirei o que quero.
Mas lá no meu íntimo, eu acredito que este não é o caminho. Pelo menos não o que eu quero seguir.
Não hoje. Não desta vez.
Eu dou um passo para trás, recolho minhas garras.
Às vezes é quase impossível manter a paz. Eu não sou perfeita.
Mas quando tenho estes pequenos momentos de clareza, eu posso fazer uma escolha. A decisão está nas minhas mãos. Entre eu e ele, eu sou a capaz de tomar decisões com discernimento.
E se eu não consigo evitar algumas atitudes dele, ainda assim eu posso controlar a minha respiração.
Eu respiro fundo. 
Meu filho me observa.
Eu também o observo, sem olhar diretamente. Olho sem olhar. Daquele jeito que nós mães fazemos.
E aos poucos a necessidade de que ele faça tudo do jeito que eu quero, de que coma tudo que tem no prato, vai embora.
É só um dia. É só um dia difícil. É só uma refeição.
Apenas um simples, ridículo, besta, grão de arroz.
Respiro mais uma vez. Dou um meio sorriso.
E assim, sem eu esperar, ele pega uma colher de espinafre e põe na boca.

O comum extraordinário

Manhã nublada, você e sua criança no chão da sala.
Congele este momento.
Eu preciso que você olhe para o rosto da sua criança.
Olhe mais.
Mais profundamente. Por mais tempo. Para mais detalhes.
Veja como os dedinhos seguram os brinquedos.
Perceba a curva doce do lábio inferior perfeitamente cor-de-rosa.
Observe os cabelos finos. Sinta o cheiro.
Memorize estes cílios longos, os olhos curiosos, e a maneira que te olham fixamente, como se você fosse o mundo, afinal, hoje você é.

Afaste a interminável lista de afazeres, os planos, as preocupações.
Varra todo o excesso para trás e coloque este momento na primeira fileira, dando a mais alta prioridade possível.

Em um piscar de olhos esta mesma criança estará conversando sobre política e planos de carreira.
E enquanto você escuta a voz animada de quem esta prestes a bater as asas, você desesperadamente busca no seu banco de memória por dias assim. O dia comum, sentados no chão da sala, fazendo coisas simples.

Quando o assunto é o meu mais velho, eu tenho buscado estes momentos com freqüência. Tenho fome de lembrar com clareza o cabelo tijelinha do meu menino. O sorriso dado, a pele lisa e perfeita, os lábios carnudinhos que falavam tudo bagunçado.
E por mais que eu procure na minha memória, e revire, eu nem sempre os encontro. As vezes me vem um flash. Lá estava o meu pequeno, correndo pela casa. Mas a imagem se vai com a mesma velocidade que veio. E eu nem sempre consigo recuperá-la.

Eu me pergunto o que eu estava pensando todos aqueles anos atrás. Problemas, medos, dilemas, que por diversas vezes eram os donos da minha atenção. Eu fazia planos, e me preocupava com coisas que me pareciam ser tão importantes. Enquanto eu deveria estar presente, não só fisicamente mas por inteira, exatamente ali, no chão da sala, com o meu menino.

Perdemos muito tempo buscando dias espetaculares, ocasiões especiais para celebrarmos a vida. Enquanto o comum, este sim é extraordinário.

Por isso pare. Olhe para a sua criança. Congele. Marque com canetinha. Coloque em destaque. Armazene.
Porque eu te prometo, um dia você irá procurar por estes momentos, e eu quero que você seja capaz de encontrá-los.

Epidemia da bondade

Uma vez ouvi que mensagens, livros e poesias são como energia. Não podem ficar presas, paradas no mesmo lugar. Devem rodar para que possam alcançar as mãos de quem precisa. Sabe quando de forma inusitada você se depara com um texto, música, ou história que representa tudo aquilo que você precisa ouvir? Algo que fala diretamente para a sua alma, bem no momento certo. Podem chamar de coincidência, eu gosto de chamar de benção.
A gente vê tanta coisa ruim sendo compartilhada freneticamente no Facebook e WhatsApp. Onde estão as boas? Se você já encontrou aqui palavras que te fizeram bem, que de alguma maneira tocaram o seu coração, que foram motivo de conforto ou de riso, então marque uma amiga, conhecida, vizinha, periquita, papagaia. Espalhe como confete tudo aquilo que te faz bem. Não só aqui desta página, mas de qualquer lugar. Use o poder que todos nós temos nas pontas dos dedos, que são as redes sociais, para espalhar amor e luz por todos os cantos. Faça o conselho, a imagem, a palavra criada, chegar até o seu real destinatário. E se dizem que bondade é contagiante, bondade entre mães deveria ser epidemia.
#espalheoamor
#Deusébomotempotodo
#OtempotodoDeusébom

Eu te apoio

Se você trabalha, você está perdendo a infância do seu filho.
Se você fica em casa, você está jogando sua carreira no lixo e não será exemplo de mulher independente.

Se você amamenta, precisa ser em livre demanda, caso contrário você está “regulando” o amor.
Se você da fórmula, então seu filho nunca vai entender o verdadeiro amor da amamentação.

Se você disciplina e coloca o seu filho de “castigo”, você é uma bruxa que está destruindo o emocional desta pobre criança.
Se você não coloca o seu filho de castigo, você é uma irresponsável que está criando um assassino em série.

Se você coloca o seu filho para dormir no quarto dele, você é uma egoísta insensível.
Se você compartilha a sua cama, ele será uma pessoa completamente dependente e jamais irá se ajustar na sociedade.

Se você vacina o seu filho, você está infestando o corpo da criança com químicos tóxicos que podem causar autismo.
Se você não vacina o seu filho, você é uma descompensada que está deixando a porta aberta para graves doenças.

Se você treina o seu filho para dormir sozinho, você é cruel e desumana.
Se você faz o seu filho dormir no colo, você está estragando a criança, e o futuro de ambos será duro.

Se você deixa seu filho com os avós e vai viajar com o marido, você não tem coração.
Se você nunca viaja só com o marido, você é insensata e está abrindo mão do seu casamento.

Se você tem parto vaginal, você gosta de sofrer e sua vagina nunca mais será a mesma.
Se você tem parto cesariana, você é medrosa e jamais conhecerá a emoção de dar a luz.

Se você se exercita durante a gravidez, sinal que é uma neurótica superficial.
Se você passa a gravidez sonolenta e cansada, certeza que vai “embarangar”.

Que grande ironia justo nós mães, os seres mais altruístas do planeta, criamos uma guerra estúpida, onde somos as maiores vítimas dos nossos pré-conceitos.

A forma como eu crio o meu filho não é para todo mundo. E a forma como você cria o seu filho também não é para todo mundo.

A maternidade não pode ser tamanho único. Casas diferentes, mães diferentes, rotinas diferentes, e acima de tudo: Crianças diferentes.

Por que é tão difícil apoiarmos umas as outras? Quer saber?

Você compartilha cama?
Eu te apoio.
Seu filho dorme no quarto dele?
Eu te apoio.
Você quer mandar sua filha para escola de princesas?
Eu te apoio.
Você quer matricular sua filha no judô?
Eu também te apoio.

E mesmo que eu te ache uma louca varrida, e mesmo que você me ache uma maluca insuportável, nós duas sempre teremos algo em comum. Algo que nos une muito mais do que qualquer diferença de opinião possa nos separar.
É este amor louco que faz com que a gente mova montanhas em busca do bem estar dos nossos filhos. E isto, por si só, já merece todo o nosso apoio.

Solidão

A maternidade é uma ponte que a gente atravessa sozinha.
Uma ponte coberta por este amor louco que nos preenche, mas ao mesmo tempo dolorosamente solitária. Uma sensação de isolamento que bate quando a gente menos espera. Ela vem durante uma festa, quando estão todos lá fora conversando enquanto você está quietinha em um quarto semi escuro ninando o seu bebê.

A solidão aparece numa tarde de Sábado, sentada no chão da sala, lendo o mesmo livrinho mais uma vez, com uma criança que te acha a pessoa mais divertida deste planeta.

Ela também chega as 3 da manhã de uma quarta-feira, quando no meio do silêncio da noite, você anda de um lado para o outro, tentando acalmar um bebê gripado que não consegue dormir sem você.

A solidão da maternidade marca presença até mesmo na simplicidade do dia a dia. É tão fácil se sentir só durante a interminável seqüência de acorda, troca, limpa, suja, tira, põe, e repete tudo outra vez. 

Mas por ironia, este isolamento bate de frente com outra realidade. A maternidade é o maior equalizador que existe. Rico, pobre, branco, amarelo, no oriente ou no ocidente. Uma mãe é sempre uma mãe.

Não interessa da onde você vem ou aonde você vive. Se você é mãe, eu posso apostar que hoje você está cansada. E que você conhece o que é medo. Que sabe bem o que é culpa. E acima de tudo isso, eu coloco a mão no fogo que você leva na alma o maior amor que já se viu.

Isso tudo me faz pensar que no fundo nunca estamos sozinhas. Não é libertador imaginar que mesmo percorrendo pontes diferentes, uma vez que o meu caminho jamais será igual ao seu, não somos as únicas e portanto não estamos sós?

Enquanto eu digito este texto, com uma bebê tentando escalar a minha perna, repetindo “mamãe” pela milésima vez no dia, fico pensando que em algum lugar do mundo está você. Segurando o lençinho humidecido, ou procurando a chupeta que caiu no chão do carro, ou apagando fotos no celular para liberar mais espaço, ou juntando brinquedos que parecem se multiplicar pelo chão da casa.

Caminhos diferentes mas todas iguais, pois no íntimo, somos movidas pelo mesmo motivo: Por corações alimentados pelo mais feroz do amor. O amor de mãe.

Língua fala. Língua paga.

As duas meninas que estão com meus filhos na banheira são filhas de uma amiga. 

Há 2 anos atrás, estávamos em um grupo de amigos em uma cervejaria. Na época esta minha amiga só tinha a filha mais velha, que deveria estar com uns 6 meses de idade. Na festa estávamos todos bebendo socialmente. Todos menos esta minha amiga. Na hora já estranhei. Justo ela, que gosta de uma cerveja. Perguntei se ela não ia beber, e ela disse que não. 

Totalmente na brincadeira disse que se ela não estava bebendo era porque estava grávida. Ela negou, riu, e disse que não estava. E eu, não sei porque cargas d’água comecei um discurso. Disse que era bom que ela não estava grávida, afinal, ela tinha uma filha pequena e é super difícil criar “2 under 2” (termo que usam aqui para falar de mães com 2 filhos menores de 2 anos). Ainda citei o exemplo de uma outra amiga nossa, lembrando o quanto ela vivia na correria e se privava de muitas coisas por ter dois filhos com idade próxima. Também fiz questão de relembrar que criar filhos aqui, longe da família e difícil, blá-blá-blá. 

Só de lembrar, já me revolto. O que é que eu tinha na cabeça pra dar lição de moral sobre este assunto, aliás, sobre qualquer assunto?

No dia seguinte minha amiga me liga, para me dizer que estava grávida. E para me pedir para não contar para ninguém. Ela tinha descoberto a poucos dias, ainda estava surpresa, e não tinha nem contado para toda a família.

Eu queria desaparecer, voltar no tempo, engolir de volta às minhas palavras. O maior problema das palavras é justamente isto. É que uma vez que são ditas, elas não podem ser esquecidas, só podem ser perdoadas. Quanto poder reside naquilo que sai da nossa boca. Ta aí um aspecto da minha personalidade que preciso e tenho tentando mudar. Ser mais consciente naquilo que falo. Tirar o impulso. Estar presente em cada palavra. E acreditem, é difícil. Por vezes sinto que só tenho falhado. Em outras ocasiões, celebro a escolha das minhas palavras.

3 meses depois desta história, descobri que estava grávida da Zara. E advinha, a diferença de idade dos meus caçulas é ainda menor do que os da minha amiga. E hoje rimos disto tudo, afinal, “língua fala, língua paga”.