Neve, chocolate, brigas e noivado.

Já que contei a história do casamento, vim contar a do noivado. 
Como eu disse no outro post, eu já estava mais do que careca, quase fazendo implante capilar, esperando o João me pedir em casamento. Até que…
Abril de 2011, fomos para uma estação de ski aqui perto. 
Sempre que vamos para as montanhas é a mesma coisa. Divertido e cheio de brigas.
Quer saber se o seu relacionamento é forte mesmo? Vá aprender um novo esporte com o seu marido. 
Dica: Peça pra ele te ensinar. Se for começo de namoro não vale. Tem que ser amor antigo. 

O meu marido faz snowboard bem. Assim, nada super sônico, mas faz bem. Vai rápido, pula umas rampinhas.
Já eu… Digamos que eu tento. E caio. Tento. E caio. E tento mais um pouco.
E tenho um problema sério com o chocolate quente que vendem por lá.
A cada 3 descidas, eu preciso parar para o chocolate.
Para ser sincera eu ja vou descendo pensando no chocolate. 
Já o meu marido não. Na estação de ski ele vive de luz. Não pode perder tempo. 

E assim, estas diferenças deixam meu respectivo meio impaciente (puto). E eu um pouco irritada (possuída).
Toda vez é a mesmíssima coisa. E a gente se diverte demais. E adora. Vai entender?
Mas voltando ao pedido de noivado. 
Neste dia o João veio com um papo que deveríamos pegar a gôndola até o mega topo da montanha.
Na hora disse que nem pensar. Nem a pau Juvenal. Sabia que ele ia me fazer descer de lá de cima. Esta descida é praticamente uma linha reta pra baixo.
E ele jurando que iríamos até lá só para admirar a vista. Que poderíamos voltar de gôndola.
Depois de muita insistência e de fazer ele jurar pela vida de todos os familiares, topei. 
Chegando lá, um vento do inferno. Frio. Aquele vento que corta o rosto. 
Desci da gôndola, admirei a paisagem por 30 segundo e:

” – Muito lindo, já podemos descer?”

Hoje em dia eu morro de rir porque ele conta que toda vez que eu virava para olhar a vista, ele se ajoelhava. 
Quando eu ia desvirar, ele ficava com vergonha e levantava. Tipo filme do Mr. Bean.
Até que numa dessas, me virei e dei de cara com ele lá, ajoelhadinho.
Até o frio sumiu!
Descemos de gôndola e provavelmente passamos o dia brigando um pouco mais, pra não perder a tradição da montanha.
Coisas do amor… ❤️

Felicidade é a gente quem faz

Meu primeiro casamento foi uma festa linda. Manhã de Sol, mulheres de chapéus, decoração impecável. Festa de revista. E realmente saiu em revista. Aquela cujo nome é uma outra palavra para “faces”.

Adiantando o tempo. Me divorciei, conheci o João, fui morar em San Diego.

Abril de 2011, já morávamos juntos há 3 anos. Depois de ficar igual aquela foto da caveirinha sentada no banco da praça esperando, um belo dia nevou, e o João finalmente me pediu em casamento.

Óbvio que eu estava ansiosa, não só porque o amava mas também porque não aguentava mais estudar para manter o visto.

Ligamos no cartório, marcamos para a semana seguinte. Eu descolei um vestido online de última hora. Quando o vestido chegou achei que era pegadinha. Totalmente diferente da foto e do meu estilo.

Meu marido foi no barbeiro que acidentalmente passou a máquina zero ao invés da 4. Ou seja, ele ficou com a careca lustrada.

Na hora da cerimonia me deu uma crise de riso. Não estou falando de risadinhas bobas. Estou falando de completa, escandalosa crise-de-riso. Lágrimas rolavam pelos meus olhos. Eu me retorcia tentando me concentrar. O João apertava a minha mão e me olhava sério, implorando para eu me recompor.

Quanto mais a juíza me pedia para repetir as palavras, mais eu ria. E depois de muita concentração e de levar muitos apertões, a cerimonia terminou.

Hora de jogar o bouquet. Mas que bouquet? Eu lá lembrei de bouquet! Alguém descolou uma única unidade de rosa. No estilo abajur cor de carne.

Acabou. Mas e agora? Não podíamos simplesmente ir pra casa. Afinal, não é todo dia que se casa! Eis que fomos para o lugar que todo brasileiro que mora fora AMA: CHURRASCARIA.

Minha festa de casamento foi em um local comercial que carrega o nome de Rei do Gado.

Pensa bem? De foto na revista “faces” para o Rei do Gado.

Todos comeram fazendo valer cada dólar dos $18.50 da promoção do almoço.

Fomos para a casa dormir. Não havia a menor condição de acontecer alguma coisa com picanha saindo pelas orelhas.

Vestido estranho, marido com careca brilhante, crise de riso, mono rosa, rei do gado, azia.

Nunca fui tão feliz em toda a minha vida.

Felicidade é a gente quem faz.

Lute por você também


Ninguém te prepara para os primeiros 3 meses de maternidade.
Se você teve parto normal a sua periquita fica mais inchada do que semente de chia de molho. Se você teve cesariana é provavel que tenha saído do hospital no estilo corcunda de Notre Dame, e com uma super agonia só de pensar em tirar o esparadrapo de cima daquela cicatriz.
Dormir passou a ser uma palavra não existente no seu dicionário.
Se antes você sonhava em ganhar na mega sena da virada, agora quem vira é você. A noite. Acordada.
Pessoas que antes nem te dirigiam a palavra, passam a te dar “dicas”. Há dicas para tudo. Para fazer o bebê dormir, para fazer o bebê acordar, como balançar o bebê, como não balançar o bebê. O que comer, o que não comer.
Há também um ligeiro desajuste hormonal. Coisa boba, que te deixa só um pouquinho chorona e irritada.
Você sobe na balança e apesar de ter parido um bebê, placenta, e todo o resto, ainda assim o ponteiro nem se mexe.
Que merda de balança é essa? 
*pensa em tacar a balança na parede* 
O que? Eu aqui preocupada com peso enquanto crianças passam sede na África?
*se joga no chão e se acaba em lágrimas*
Mas passa. E some da memória.
Um belo dia, na calada da noite, um duende entra no seu quarto, e deleta os últimos 3 meses.
Você acorda sem saber como aquele serzinho que cabia no seu antebraço, agora sorri e mostra traços de uma personalidade forte.
E assim, num piscar de olhos, vem uma nova realidade.
Rotina.
Dia, após dia, após dia.
A vida em piloto automático.
Aonde você se escondeu? Aonde foi parar?
Por acaso os seus filhos sabem o que você ama fazer?
Eu sei, eu entendo, a maternidade penetra nos ossos. Gruda no DNA.
Acontece que o maior amor do mundo requer energia. Toda-energia-de-cada-uma-das-suas-células.
O amor consome. E por mais que você queira, é impossível recarregar só com os filhos.
É uma daquelas promessas irreais, do tipo emagreça comendo.
Faça algo por você.
Vá correr, vá para o clube do livro, yoga online, tricô nas quartas-feiras.
Reescreva os seus sonhos. Os seus. Os que moram em você.
Encontre-os.
É tão fácil lutar pelos filhos, amigos, parentes.
Se faça um favor, nem que seja em nome da sua família, mas lute por você também.

A kombi e a última vez

Esta é a história de um menino e a sua kombi.
Uma kombi de alumínio, destas simples que a gente compra em qualquer loja de brinquedos.
Aonde estava o menino, lá estava a kombi.
Todo dia era a mesma coisa. Eu o carregava no colo, enquanto segurava a kombi com a outra mão. E foi assim por muito tempo. Até que acabou.
Não lembro exatamente quando ele deixou a kombi de lado.
Incrível como a gente esquece. Como passa despercebido.

Outro dia, no primeiro dia da pré escola, ele apertava a minha mão forte. Como se o porto seguro estivesse ali, entrelaçado em cada um dos meus dedos.
Até que ele a soltou. E não a segurou mais. Não do mesmo jeito.
Já não sei quando foi a última vez que senti aqueles dedinhos segurando os meus.
Você vê só? Existe sempre uma última vez. E a gente nem imagina que a última vez pode ser esta. Não tem como adivinhar. Você só sabe depois que já se foi.

Houve um tempo em que nós deitávamos juntos no sofá. Eu cantava, ele ouvia. Até que um dia ele parou de sentar no meu colo. E eu parei de cantar.
A mais pura realidade.
Existe um dia no calendário que será a última vez em que você irá segurar o seu filho apoiadinho no seu quadril. Será a última vez que os seus braços se encaixarão perfeitamente em volta daquela criança, da sua criança. E assim, nesta mesma tarde, você a colocará no chão e nunca irá carregá-la novamente. Nunca.
Sinto saudades de todas estas últimas vezes. Estas que passaram sem que eu percebesse. De todas estas coisas corriqueiras, que se foram e que não voltam mais.
Até as madrugadas em claro. Aquelas onde a vontade de desaparecer se misturava com o amor que eu sentia ao ver aquele sorriso. As noites foram embora. E eu não consigo recapturar a imagem da última vez que o tirei do berço.
Houve uma última vez. Sempre há a última vez. Nós é que não temos a consciência.

Ele cresceu, cresceu demais. Já não vejo aquele menino com a kombi.
Um dia eu estava diante de braçinhos que se esticavam para cima, em busca de colo. E agora tudo o que vejo são olhos nivelados na mesma altura dos meus.
E assim, o meu menino há muito tempo já não cabe no meu colo. Já se foi nossa última vez.
Já não o seguro mais. Nem ele, e nem a kombi.

O almoço 

Hora do almoço.
O que geralmente é um momento prazeroso, hoje foi um desafio.
A materndiade é assim mesmo. Difícil de prever.
Hoje meu filho me diz que só quer arroz.
Diante de um prato colorido, que me custou horas de preparo, e uma cozinha de ponta cabeça, hoje ele só quer arroz.
Eu insisto.
Ele rebate.
Os ânimos vão se alterando.
Ele nunca teve destas coisas, por que isto agora?
Eu tento mais uma vez.
Ele reage.
Não. Aqui em casa não tem esta de comer só arroz.
Eu quase me descontrolo.
Eu sei que não é motivo. Sei que é só mais uma gota, uma gotinha enchendo o copo de uma mãe que anda exausta.
E ele continua a repetir: “Só arroz.”
Algo pequeno que vai me corroendo.
Eu paro. Observo sua expressão firme. As palavras saindo da boca de um mini ser que está  decidido a enfrentar esta batalha.
E é sempre assim, em qualquer luta na maternidade. Por menor ou maior que seja. Eu posso gritar. Eu posso encher a casa de medo, rechear a vida das crianças com ameaças, buscando conformidade.
Posso deixar o ambiente carregado com tudo aquilo que em geral não combina com o meu coração materno. E assim, no grito, eu conseguirei o que quero.
Mas lá no meu íntimo, eu acredito que este não é o caminho. Pelo menos não o que eu quero seguir.
Não hoje. Não desta vez.
Eu dou um passo para trás, recolho minhas garras.
Às vezes é quase impossível manter a paz. Eu não sou perfeita.
Mas quando tenho estes pequenos momentos de clareza, eu posso fazer uma escolha. A decisão está nas minhas mãos. Entre eu e ele, eu sou a capaz de tomar decisões com discernimento.
E se eu não consigo evitar algumas atitudes dele, ainda assim eu posso controlar a minha respiração.
Eu respiro fundo. 
Meu filho me observa.
Eu também o observo, sem olhar diretamente. Olho sem olhar. Daquele jeito que nós mães fazemos.
E aos poucos a necessidade de que ele faça tudo do jeito que eu quero, de que coma tudo que tem no prato, vai embora.
É só um dia. É só um dia difícil. É só uma refeição.
Apenas um simples, ridículo, besta, grão de arroz.
Respiro mais uma vez. Dou um meio sorriso.
E assim, sem eu esperar, ele pega uma colher de espinafre e põe na boca.

Ano novo

No ano novo há uma certa magia no ar. São muitos corações transbordando esperança e fé em um único dia. Como se os anjos chegassem mais perto da Terra. E como se Deus escutasse nossas preces mais de pertinho. 

Podem dizer que é um dia comum, como qualquer outro. Mas pra mim não. Para mim o ano novo é um presente do céu. Uma segunda, terceira, quarta, quinta chance. Um grito de alerta, um chacoalhão. Como adolescente quando a mãe pergunta:

“-Ei, o que você está fazendo da vida?”

O dia da virada. De virar. Repensar. Renovar as forças, mudar os rumos. 

Vem 2017, que você floresça o que há de melhor dentro de nós, e leve embora  tudo aquilo que não merece estar no coração.

E que Deus abençoe.

Recompensas

E quando você se perde, e já não encontra motivo para repetir tudo aquilo que você faz e que aparentemente ninguém vê, chegam as recompensas.
São premiações que surgem quando você menos espera. 

Elas aparecem nos dias em que a louça da pia está prestes a encostar no teto. Ou nos dias em que o estoque de paciência acaba logo pela manhã e não há a menor previsão de reposição. E até mesmo nas tardes onde choro se transforma em esporte olímpico e o pessoal da sua família garante a classificação logo na primeira etapa.

Estes presentes, que fazem bem para a alma e o coração, vêm nas mais simples formas. São gargalhadas inesperadas, daquelas onde você vê a inocência escrita nos olhos da sua criança. São beijos onde pequenos lábios se juntam para fazer o bico mais perfeito que já se viu. São sinfonias de “mamãe eu te amo”, são abraços de urso, e sorrisos sem graça.

Às vezes a recompensa chega como voz doce, que te enche de orgulho por ser prova do seu cansativo mas gratificante trabalho: “Por favor”, “obrigada”, “com licença”.
Ela vem em forma de braçinhos se esticando pra cima, em direção ao céu. É quando você percebe que para aquela criança, o céu é nada mais nada menos do que você.
E é aí que a vida ganha significado.
Vivemos por momentos assim.

Empilhamos roupas, juntamos brinquedos, ficamos acordadas por noites e noites, choramos no carro, sentimos culpa, fazemos planos.
Pesquisamos sobre alimentação saudável, protetor solar, carrinhos e chupetas. Perdemos a tranquilidade obcecadas por pequenos detalhes que passaram a ser tão, mas tão importantes.
Damos tudo que mora dentro de nós e até um pouco mais, só por estes momentos.

E então, as duas da manhã, trocando uma fralda que vazou não somente na roupa mas também no lençol,  o seu presente chega em forma de riso nos olhos. Olhos que iluminam qualquer escuridão que um dia te amedrontou.

E te bate de frente. Te desarma, te amolece. Te derruba. Toma conta.

Basta 5 segundos assim, no meio de um dia catastrófico, para que você se sinta capaz de seguir em frente. De enfrentar o mundo.
Presente divino? É mais do que isto.
É quando o amor de mãe e o amor de Deus entram na mais perfeita sintonia. E assim, tudo vale a pena.