Milagres

E enquanto eu empurro ela na balança de novo, e novamente, e mais uma vez, me vem à cabeça todas as mães que tiveram que se despedir dos seus filhos cedo demais. E em silêncio meu coração aperta.

De madrugada, quando o meu do meio decide que quatro da manhã é um bom horário para começar o dia, eu respiro fundo. Eu reviro o meu corpo em busca de disposição. E eu o faço pensando nelas. Nestas mães.

Nos longos fins de tarde, com uma criança chorando e escalando as minhas pernas enquanto eu corto cenouras em finas rodelinhas, eu procuro sorrir. Em homenagem à elas.

De manhã cedo, quando minha caçula se revolta mais uma vez contra a cadeirinha do carro, eu respiro. Respiro fundo. E penso nelas.

Quando o feijão queima, quando eu abro a porta e encontro a lancheira com a lição de casa em cima da mesa, quando o xixi vaza na roupa, quando me perguntam a mesma coisa pela décima vez, quando tudo parece ser um complô contra a forma que eu quero maternar. Quando nada sai do jeito que eu programei. Em todos estes momentos eu me esforço bravamente para lembrar delas. 

Todas estas mães que dariam cada pedacinho da alma para estar vivendo tudo isso. E que por motivos que ainda não conseguimos compreender, não tiveram esta chance.

Que presente é este que me é dado.
Que oportunidade é esta que tenho em minhas mãos.
De criar meus filhos. De viver com eles as manhã escuras, as frustrações, o caos, o cansaço, o choro, as brigas, as batalhas. 
E assim eu consigo lembrar que tudo não passa de uma grande benção.
Milagres.
Meus problemas nada mais são que milagres.
E por eles, eu sou grata.

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Faz parte de ser mulher 

Faz parte de ser mulher. As vezes penso que nossos corações vivem, de certa forma, apertados. 
Estamos sempre entre a cruz e a espada. 
Seja tentando defender um filho, sem poder tirar a autoridade do marido, enquanto ele da aquela bronca. 
É a correria para terminar o relatório do trabalho que precisa ser entregue na exata semana que o caçula ficou doente. 
É arrumar mil desculpas para defender um do outro, para safar a diarista que faltou, para encobrir a bagunça que o mais velho deixou no quarto. 
É lidar com o desapontamento da criança que terá que sair mais cedo da festinha do amigo, só para que vocês possam passar também no chá de bebê da sua cunhada.
E nunca acaba.
Há sempre um conflito. 
De tempo, de necessidades, de quem precisa mais de você.
Um constante cuidado para garantir o bem estar de todos, para não magoar ninguém, não desapontar, não desmerecer.

Ser mulher é ser equilibrista. E requer tanto, mas tanto de nós.
E tem dias que fica pesado. 
É mais do que um jogo de cintura, é um jogo de paz.
Ser mulher é segurar nas mãos, nos ombros, no peito, a tranquilidade e a harmonia entre aqueles que amamos. 
É silenciar mesmo quando a vontade é de berrar aos quatro cantos. 
É berrar aos quatro cantos mesmo quando a vontade é de silenciar. 

É engolir uma lagoa de sapos para poupar a todos a guerra com os leões.
Infelizmente, ou felizmente, este é um ponto que o nosso movimento feminista jamais conseguirá mudar.
Porque colocando o preconceito e todo o resto de lado, lutar pelo amor e pela paz é da nossa natureza.
Ser mulher pesa, mas me enche de orgulho.
Somos super heroínas. Todas nós. 
Somos nós quem mantemos o mundo girando em harmonia.
E fazemos tudo isto quietas, sem grandes alarmes, sem barulho.
Somos nós que de dentro das nossas casas fazemos milagres. 
Todos os dias.